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O médico e amigo Murilo Barros, ícone da medicina potiguar

O médico e amigo Murilo Barros, ícone da medicina potiguar
Murilo Barros, na Praia de Muriú, com a sua afilhada, Patrícia, filha do médico José Maria Aragão.

O Dr. Murilo Barros, médico e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande, faz parte de uma confraria de amigos formados por cirurgiões-dentistas, médicos e outros profissionais liberais, que toda sexta-feira se reúnem entre 7 horas e o 8 horas para bater papo e tomar café na Tia Nelsa, na rua São José, em Natal.

O Dr. Givaldo Soares, cirurgião-dentista, ícone da odontologia potiguar, presidente da Confraria da Amizade e insigne cambista do jogo do bicho na paradisíaca cidade de Lagoa dos Gatos,entre o Agreste e Zona da Mata de Pernambuco, é um colaborador assíduo do site do CRO-RN, responsável por artigos e entrevistas para o Cantinho do Remido, espaço dedicado aos dentistas que completam 70 anos.

Neste mês de outubro, que se comemora o  Dia do Médico, em 18 de outubro, e o Dia do Dentista, em 25 de outubro, o Dr. Murilo Barros, 90 anos, ex-professor de Ginecologia e Obstetrícia da UFRN, concedeu entrevista ao amigo Dr. Givaldo Soares, 83 anos, cirurgião-dentista que gosta de conversar e fazer amigos.

Fale um pouco da sua família e da sua infância em Mulungu, no Ceará.

Murilo Barros- Minha família era composta de 13 irmãos, mas três não vingaram, pois Maria e Peri morreram na primeira infância, de gastroenterite; Sandoval morreu de um susto: Um cachorro chamado Tupan, perseguindo uma galinha, pulou por cima da rede onde ele dormia; a galinha aos gritos, e Tupan latindo; Sandoval – quatro meses de idade – assustou-se e chorou até morrer, dois dias depois.

Criaram-se 10: Aymoré, (Ei-eia), José (Bebé), Osvaldo (Nanã), Isa (Didia), Elsa (Maninha), Leonor (Madrinha), Stela (Nego veio), Leonardo (Tijubina), Robério (Seu Vigário) e Eu (Meleca). Os apelidos faziam parte da cultura da época. Morávamos no Sítio Condor, a 800m de altitude, na Serra de Baturité/CE.

A casa tinha uma porta e duas janelas de frente, era de telha-vã e piso de terra batida. A escola mais próxima ficava a três léguas de distância, e só os irmãos mais velhos a frequentavam. Os outros foram alfabetizados em casa, pelos mais velhos.

Contam que numa noite, todos deitados e as lamparinas apagadas, eu, aos três anos de idade, abri o berreiro: tai, tai, tudo dormindo e eu não!!   Foi uma risada geral, mamãe tirou-me da rede, e dormi ao seu lado na cama. Dias depois, com todos sentados à volta da sala, ouviam uma das irmãs ler o romance Romeu e Julieta. Eu saí da minha cadeira e, no meio da sala, tirei a roupa e anunciei: Tai, tai, tudo vestido e eu nu!  Minha mãe tirou a chinela e eu fui dormir com a bunda ardendo...

Onde você fez seus estudos secundários?

Murilo - Fui alfabetizado em casa, quando fui morar em Baturité, dona Belarmina Campos em três meses me deu atestado do curso primário. O que me permitiu fazer o exame de admissão ao ginásio. Cursei os três primeiros anos no ginásio Domingos Sávio, em Baturité. O 4º e último ano cursei no colégio Lourenço Filho, em Fortaleza. Colei grau de Bacharel em Ciências e Letras – Avalie só – no dia 23.12.1945. A turma foi denominada Força Expedicionária Brasileira, em homenagem aos pracinhas brasileiros que voltaram da Itália cobertos de lama e glória.

O curso científico fiz em Fortaleza, no Colégio Lourenço Filho. Isto foi em 1948, um dos anos mais atribulados dos 90 anos que tenho vivido. Primeiro, fui preso por quebrar os bondes de Fortaleza. Fui expulso do Centro Preparatório de Oficiais da Reserva do Exército – CPOR - por subversão. Fui aprovado no vestibular de Medicina, da Faculdade do Ceará, mas a 14ª Região Militar, através do ofício secreto número 01, proibiu a minha matrícula. Aconselhado pelo Secretário, Dr. José Carlos Ribeiro, arribei para Recife.

Por que fez opção pelo curso de Medicina em Recife?

Murilo - Quando a minha aprovação no vestibular de Fortaleza foi publicada, eu fui me matricular depois de um fim de semana de comemoração. O Dr. José Carlos Ribeiro, secretário da Faculdade, disse que não podia me matricular porque o Exército fecharia a Faculdade. E concluiu: Entre você e a Faculdade, optamos pela Faculdade.                E completou: Quer um conselho? Se quer ser médico vá embora daqui.

Só existia a Faculdade de Medicina em Belém do Pará, Recife, Salvador e no sul do País. Recife era a mais viável.  Mas precisava de dinheiro. Passei a vender bordados, e montei um sistema de vendas pelo correio, em sociedade com meu irmão, Aymoré, que morava em São Paulo. Apurei 12 contos de réis que, pelos meus cálculos, dava para financiar os três primeiros anos em Recife.

Como era Recife nessa época, no plano social e político?

Murilo - A minha chegada em Recife foi um choque. Foi lá que percebi que Fortaleza não era a maior e melhor cidade do mundo.  Recife se localiza onde os rios Beberibe e Capiberibe se juntam para formar o Oceano Atlântico. Lá, naquela época, quem não era Coutinho era coitado; quem não era Cavalcante era cavalgado e quem não era Marques era marcado.

Os Recifenses eram socialmente impenetráveis. Não nos discriminavam no convívio acadêmico, mas não admitiam o menor relacionamento social ou familiar. Das centenas de colegas recifenses com quem convivi, em seis anos, só frequentei a casa de uma colega que eu ajudava nas provas, e que lá pelas tantas passou a amenizar a minha solidão. Politicamente havia muita efervescência, pois era ano eleitoral. Por conta da federalização da Faculdade, o vestibular atrasou e só foi realizado em fevereiro. Os candidatos reprovados nos outros Estados correram para lá, o que fez com que houvesse mais de mil candidatos...

Eram 125 vagas, passaram 250. Como era ano eleitoral, e no Brasil criou-se a figura do Excedente de Medicina, salomonicamente criou-se uma turma noturna, os professores recebiam em dobro e viva o Brasil! No 2º ano não tinha eleição, não houve verba para a 2ª turma, juntaram-se todos, incluindo-se aí os reprovados das turmas anteriores, o que dava um total de 333. O Professor Bezerra Coutinho nos recepcionou dizendo: Os senhores são a metade da besta fera! Ao que meu colega China rebateu baixinho. E o senhor é a outra metade!  Em uma sala projetada para 40 alunos espremiam-se os que chegavam primeiro.

Em que ano você concluiu o Curso de Medicina? E por que fez opção pelo RN?

Murilo - Colei grau no Teatro Santa Isabel, na tarde do dia 08-12-1955. E, engraçado, eu não sabia que na solenidade de colação de grau o doutorando tinha que apresentar o anel, e o padrinho colocava no dedo anular esquerdo do diplomado. Como a chamada era pelo número da matrícula e a minha era antes de Araken, pedi o anel dele emprestado. Quando voltei com o anel dele no dedo me neguei a devolver. Só entreguei quando o paraninfo repetiu a chamada. Presepada até na formatura... A opção pelo RN se deu quando eu estava no Rio de Janeiro  fazendo o curso de Sanitarista, no Ministério de Saúde, e a especialização em Ginecologia, no Hospital Moncorvo Filho, e recebi um telefonema de um senhor, que se identificou como Deputado Federal Eider Varela, amigo de meu cunhado, Dr. Etelvino Cunha. Disse-me ele que tinha construído um hospital maternidade em Ceará-Mirim, e precisava de alguém para dirigi-lo. Expliquei que era funcionário do governo da Paraíba, estava me especializando no Rio de Janeiro por conta do Estado, e que iria expor o caso aos meus superiores e, se eles me liberassem, eu aceitaria. Ele então propôs que, antes disso, fosse a Ceará-Mirim para saber ao certo se me convinha. Foi o que fiz, e meu amigo de sempre, Wilson Braga, Deputado que me levou para Paraíba não fez a menor objeção. Dirigi o hospital maternidade de Ceará-Mirim por 17 anos, realizei 1.208 intervenções cirúrgicas, fiz mais de 10.400 partos e batizei 221 afilhados.

Fale um pouco de sua vida universitária como professor de Ginecologia e Obstetrícia?

Murilo - No início, a Clínica Ginecológica funcionava em uma enfermaria do Hospital Miguel Couto, hoje Hospital Universitário Onofre Lopes. O Catedrático era o Professor Etelvino Cunha e os assistentes eram, além deste escriba, o Dr. William Pinheiro, que se intitulava Chefe de Clínica, e que cuidava da parte burocrática, pouco atuando no atendimento clínico e na parte científica. A Doutora Zebina Ventura chefiava o Laboratório de Citologia e eu tocava a parte cirúrgica. As doutoras Dalila Leal e Celli Carvalho cuidavam do ambulatório e da enfermaria. Era um trabalho prazeroso, pois o Professor Etelvino dirigia tudo com zelo e proficiência, fazendo uma seção semanal de Análise de caso e, mensalmente, um balanço geral dos trabalhos.

Como é chegar aos noventa anos lúcido e feliz? Qual é o segredo?

Murilo - A lucidez pode se atribuir à genética, ao hábito da leitura e a permanente atividade intelectual. Mas isto é tudo muito subjetivo. Quanto à felicidade, creio que, no meu caso, depende da capacidade de fazer o BEM e a de evitar fazer o MAL. Digo isto porque hoje, aos 90 anos, o que me alegra é recordar o BEM que pude fazer e o que me entristece é o MAL que não consegui evitar.

O mundo atravessa uma situação dramática, muitos avanços tecnológicos e atrasos humanitários, como a guerra e a violência de toda ordem. Como você vê esta questão?

Murilo - Se analisarmos estatisticamente a coisa muda de figura. Quando CAIM matou ABEL, qual o percentual da humanidade que ele destruiu? E a 2ª Guerra Mundial, qual o percentual de mortos?  Também temos de considerar que, com a universalidade da comunicação, até uma queda de bicicleta na Cochinchina chega ao nosso conhecimento. Além do mais, a violência faz parte do nosso DNA. Lembro agora da cena final de Guerra do Fim do Mundo, sobre a campanha de CANUDOS, aonde um garoto de 10 anos, do alto do morro da Favela, com um fuzil a tiracolo, observa os cinco últimos resistentes do Conselheiro serem assassinados pelas forças legalistas. Tristonho ele proclamou: “Tem jeito não, enquanto existirem dois homens, um tem que matar o outro temque morrer.

Você transformou o hospital de Ceará-Mirim em uma verdadeira universidade, orientando muitos jovens. Lembra o nome de alguns?

Murilo- Lembro de todos; agora, na hora de citar os nomes sempre se corre o risco da omissão.  Uns, porque se distanciaram por injunções da vida, mas aqui e acolá vem-me à lembrança alguém que pensava ter esquecido. Todos venceram na vida, e nenhum esqueceu a lição mais importante que procurei transmitir: Nunca transforme o ALTAR da Medicina em balcão de feira livre.

Além de Medicina, você teve uma participação política, exercendo o cargo de Prefeito de Ceará-Mirim. Como foi essa experiência?

Murilo - Eu trabalhava há 12 anos em Ceará-Mirim. Em 1968, fui procurado pelo Vice-Prefeito, Manuel Sobral e pelo decano dos vereadores, Antão Barreto, que me convidaram para ser candidato a Prefeito. De pronto, recusei; disse que não era político, não gostava de política etc.  Eles contra argumentaram: “Osenhor vive falando que os políticos não fazem nada pela saúde e educação do município. Estamos lhe oferecendo a oportunidade de fazer”. Foi um baque! Respirei fundo e respondi: Se é um desafio, eu aceito! Selou-se a minha sorte. Das 43 urnas, só perdi na urna do feudo do meu adversário.

Quando assumi, Ceará-Mirim tinha 15 escolas, onde estudavam 700 alunos. Quando encerrei o mandato tinha 4.000 alunos estudando em 43 escolas.

Quando meu sucessor assumiu, fechou a maioria das escolas, mas justiça se faça, a 1ª que ele fechou tinha o nome de um tio dele. Criei o serviço de saúde do município e, com uma Kombi odontológica doada por Dix-Huit Rosado, através do INCRA, mantinha em funcionamento 10 Mini Postos de saúde pelo interior do município.

O Presidente da Câmara, na época, era seu amigo-irmão Murilo Pinto. Fale um pouco desta grande figura da Odontologia do RN.

Murilo - Quando assumi a direção do HMCM, Murilo Pinto era o responsável pelo setor Odontológico. A sinergia foi imediata! Tornei-me médico da família dele e, juntos, tocamos a Saúde do município. Fiz o parto de sua última filha, que hoje é minha nora. Sempre vi em Murilo Pinto a capacidade didática inata que gera os grandes professores. Quando se falou na federalização da Faculdade de Odontologia, os amigos mais próximos, comandados por sua esposa, Stela Pinto, pressionamos para que ele aceitasse o convite que recebera de um dos professores, para assumir o posto de Professor Assistente. Ele relutava porque sempre procurava esconder sua alta capacidade pedagógica. Foi político por injunções familiares e sociais. Foi Vereador por 10 anos, sempre usando o mandato em prol do município, procurando apaziguar os mais radicais, e contribuindo sempre para a paz da família Ceará-Mirinense. No último ano do meu mandato de Prefeito, tentei por todos os meios fazê-lo aceitar ser candidato. Ele nunca aceitou, mesmo diante da alta probabilidade de ser candidato único. O poder não o seduzia.

O Dalai Lama escreveu um livro recente conclamando os jovens a uma revolução ética e humanitária no século 21. Como médico quais os concelhos que você daria aos jovens da atualidade?

Murilo - Com todo o respeito que o Dalai merece, discordo do foco da questão: A dinâmica sociológica demonstra que o comportamento ético-humanitário de uma geração, é formado pelo exemplo da geração anterior. Como é que você pode exigir de um jovem que se comporte dentro dos limites da boa educação, quando ele vê exatamente o contrário ser praticado pelos mais velhos? A televisão, o rádio e as redes sociais que podem servir de exemplo, fazem exatamente o contrário. Os artistas de novela, não se sentam, se jogam em cima da cadeira, de preferência com os pés em cima do acento. É comum apresentador de TV limpar o nariz em público.  E por aí vai...  Como é que você quer que o jovem faça uma revolução ética-humanitária, se a geração atual, pratica, prega e enaltece a violência, a sensualidade, a ambição, a corrupção e o desrespeito?  

É muito fácil ser casto, honesto e pacífico dentro de um convento ou numa comunidade do Himalaia. Difícil é ser tudo isto no meio em que vivemos, lutando 24 horas por dia para sobreviver!

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