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MARCOS PAIVA DA ROCHA UM BOÊMIO, ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

MARCOS PAIVA DA ROCHA  UM BOÊMIO, ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA
O doutor Givaldo entrevistou o amigo Marcos Paiva, ex-presidente do CRO-RN por duas gestões

No esplendor de sua experiência, aos 77 anos completados no dia 6 marco, este boêmio e dançarino, Marcos Paiva da Rocha, nasceu em Natal em 1942 e aqui permanece fiel à sua província querida.

Marcos Paiva, presidente do CRO-RN em duas gestões, concluiu seu curso de Odontologia em 1968, na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde seguiu a carreira docente na Disciplina de Odontologia Social.

O seu mestrado foi em Niterói (RJ) e concluiu seu doutorado em Pernambuco.

“É boêmio e excelente dançarino. Ao lado de sua esposa Janeide da Costa Veríssimo, formam o casal mais alegre da Confraria da Amizade”, conta seu amigo e colega de profissão, Givaldo Soares, colaborador assíduo do CRO-RN e responsável pelo Espaço Remido.

Abaixo, leia a entrevista:

CRO-RN - Você nasceu em 1942, em plena guerra mundial. Como foi sua infância em Natal, cheia de americanos? Fale também um pouco de sua família.

Marcos Paiva - Nasci na Rua Princesa Isabel e logo depois fui morar no Alecrim. Como tinha pouca idade, o que sei sobre os americanos em Natal é por  escutar conversas de outras pessoas. Lembro-me que com seis, sete anos de idade, o Alecrim era o ponto de saída dos caminhões da aeronáutica transportando operários  e alguns falavam que trabalhavam na Base Aérea na época da guerra.

CRO-RN - Seus estudos básicos foram feitos em dois principais colégios de Natal: Santo Antônio e Atheneu. Como você relembra esses tempos? 

Marcos Paiva - Após concluir o primário, me inscrevi para fazer o antigo exame de admissão no Colégio Santo Antônio, no Início de 1954, e, para surpresa minha e dos familiares, fui aprovado. Fiz o Ginásio, aonde convivi com colegas que até hoje tenho contato. Foi um tempo bom, e o Marista na época era conhecido como um colégio de elite. Em 1955 minha família passou por um grande problema, que foi a morte prematura de meu pai, deixando uma viúva com cinco filhos. Com muito sacrifício, minha mãe conseguiu me manter no Marista até a conclusão do ginásio. Meu pai era músico amador.  Eu estudei música e fiz parte de uma banda de música formada por crianças chamada Banda de Música do Departamento de Educação.  Toquei trompete, mas depois abandonei o trompete, porém continuei gostando de música.  Com o ginásio concluído, tive que trabalhar  no comércio e fazer o científico à noite, num anexo do Atheneu, que funcionava no Colégio Sagrada família. Foi um período sacrificado, mas conclui e fui pensar o que ia fazer.

CRO-RN - Como decidiu pela profissão odontológica?

Marcos Paiva -Trabalhando dois expedientes,  nos fins de semana frequentava os bares e os pontos  boêmios da cidade, aonde conheci grandes músicos. Só tentei o vestibular em 1963, para medicina, que na época tinha provas eliminatórias e consegui fazer até a última prova que foi de biologia. Incentivado por um tio que era professor, fiz um treinamento e fui ser professor de ciências, o que me deu mais disponibilidade de tempo para me preparar para tentar ingresso na universidade. Em 1964 não enfrentei o vestibular, mas em 1965 o fiz para odontologia pela primeira vez, tendo me preparado para enfrentar a concorrência. Comecei a fazer o curso e logo depois fui nomeado, através de concurso, para o antigo IAPC, onde fiquei até 1970.

CRO-RN - Em que ano concluiu seu curso? Sua turma era muito grande?

Marcos Paiva - Comecei o primeiro ano da faculdade em março de 1965. Minha turma era pequena, apenas 12 alunos. O único que eu conhecia era José Lindomar Diógenes, que havia sido meu colega de curso científico. Nossa turma até hoje é muito unida e sempre nos encontramos. No início do curso  tive que me adaptar a uma nova realidade. Além disso, a situação política do país não era das melhores. Regime Militar se consolidando e as ditas autoridades de olho nos estudantes. Os quatro anos de curso logo se passaram. No decorrer do curso, ainda aluno da Disciplina de Higiene, hoje Odontologia Preventiva e Social, fui convidado pelo professor Aldo Tinoco para ser  monitor e fiquei colaborando com a disciplina, sob a responsabilidade do professor Giuseppe Leite, depois que o doutor Aldo foi para São Paulo. Colei grau no dia 21 de dezembro de 1968, poucos dias depois do AI-5 (Ato Institucional de 5 foi o quinto decreto emitido pelo regime militar brasileiro (1964-1985) e considerado o mais duro golpe na democracia, que entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do então presidente Artur da Costa e Silva). O paraninfo da turma, Aldo Tinoco, não compareceu, preferiu ficar em São Paulo. Mas tivemos a missa celebrada por Padre Zé Luiz, que se retirou logo após o encerramento. Nossa turma talvez tenha sido a única da nossa universidade que não teve discurso de Paraninfo.

CRO-RN - Você fez seu mestrado em Niterói e o doutorado em Recife. Fale um pouco das teses que você defendeu.

Marcos Paiva - Concluída a graduação, comprei consultório junto com uma colega de turma,  aonde comecei a exercer a profissão. Paralelamente, continuei trabalhando no então INPS, que substituiu os outros institutos de aposentadoria e pensões da época. Também continuei auxiliando na Disciplina de Higiene, e em 1970 surgiu um Concurso Público para o CRUTAC, um programa da UFRN. Fui aprovado e trabalhei em Santa Cruz até 1975. O então Reitor Domingos Gomes de Lima tinha um projeto de titular a maioria dos professores. Inscrevi-me para a seleção no  Curso de Mestrado em Odontologia Social da Universidade Federal Fluminense e fui classificado e cursei de 1976 a 1978. Defendi  tese sobre prevenção de Câncer Oral. Fiz uma pesquisa no Hospital Antônio Pedro, em Niterói, e no Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, orientado pelo professor Marcos Sales Cunha. No meu regresso a Natal, estava sendo iniciado na nossa universidade o Mestrado em Odontologia Social e fui convidado para fazer parte do seu corpo docente, aonde cheguei a ser coordenador. Em 1986 foi criado o curso de doutorado em Odontologia Social, na Faculdade de Odontologia de Pernambuco. Inscrevi-me e fui selecionado. O curso era realizado em um sistema que não havia necessidade de morar em Recife. Uma semana por mês assistíamos aulas em tempo integral e eram definidas tarefas para serem realizadas em casa. Após uma ou duas semanas apresentávamos as tarefas e recebíamos outras. A  cada três meses é que precisávamos permanecer duas semanas seguidas com o  curso funcionando em tempo  integral, com aulas ministradas por professores vindos de outros estados. Concluídas as disciplinas, fiz um projeto de pesquisa, o qual foi aprovado, e eu desenvolvi a tese sobre os cuidados preventivos do uso do mercúrio na Clínica Odontológica, orientado pelo professor Ernesto Pilloto.

CRO-RN - Você teve uma administração muito produtiva na presidência do Conselho Regional de Odontologia, em 1990.  Foi responsável pela compra do terreno para construção da sede. Fale um pouco sobre essa ação.

Marcos Paiva - Ainda sem concluir o doutorado, em 1988, fui eleito para presidir o Conselho Regional de Odontologia. Foi uma experiência nova, mas procuramos dar conta do recado. O Conselho funcionava em duas salas no Edifício Barão do Rio Branco e não tinha mais espaço para melhorar o funcionamento. Tentei adquirir uma nova sede, mas  a situação financeira não permitia, pois o país estava atravessando uma fase de inflação altíssima. Quando encerrou o mandato em 1990 não quis sair candidato a reeleição, pois tinha a minha tese de doutorado para concluir. Na Eleição de 1992 fui novamente eleito e tinha como prioridade a aquisição da sede própria. O Dr. Clemente Galvão, então Vice-presidente do CFO, levou o problema a presidência do CFO que nos garantiu os recursos para a aquisição. Procuramos um imóvel que atendesse nossas necessidades e encontramos uma casa antiga no bairro do Tirol, onde estamos até hoje. Fizemos uma pequena reforma para adaptação e logo depois nos mudamos. As salas do Barão do Rio Branco foram vendidas. Na gestão de Lenilson Carvalho, que me sucedeu, foi construída a sede atual.

CRO-RN - Você participou da diretoria da ABO-RN (Associação Brasileira de Odontologia, seção Rio Grande do Norte), sendo duas vezes vice-presidente. Como vê hoje a atuação das entidades de classe?

Marcos Paiva - Sempre participei das nossas entidades de classe. Ainda estudante frequentava a ABO, na sede velha da Av. Rio Branco. Como estava sempre presente fui convidado para fazer parte da diretoria. A ABO sempre foi uma entidade atuante, promovendo vários congressos, semanas odontológicas e encontros culturais. Como vice-presidente atuei mais durante a organização de congressos e encontros, não atuando muito na parte administrativa. Mas procurei cumprir as tarefas que me eram delegadas. Atualmente não participo de nenhuma entidade de classe. A nossa ABO tem uma sede excelente e vem cumprido com sua finalidade promovendo cursos de especialização. O CRO e o SOERN (Sindicato dos Odontologistas do RN) também são  entidades atuantes e desenvolvem  um grande trabalho em prol da nossa classe.

CRO-RN - Você foi sempre alegre e muito boêmio. Quais são as suas preferências musicais?

Marcos Paiva - A música sempre esteve no meu sangue. Meu pai era músico e eu estudei música na minha infância. Gosto de todo tipo de música, mas a minha preferida é a MPB. Vez por outra escuto música clássica para relaxar. Recentemente estive  em Viena e fiz questão de assistir um Concerto na “Ópera de Viena”. Fiz parte durante vários anos do CLAMBOM (Clube dos Amantes da Boa Música). Quinzenalmente nos reuníamos na casa de um dos associados para curtir música. Cheguei a ser o presidente e neste período fizemos apresentações fora do estado, em Florianópolis, e também tentamos levar o nosso clube ao interior, com apresentações em Campo Grande, Martins e Macau. Houve uns desentendimentos e o CLAMBOM foi desativado. Porém isto, não fez com que eu me afastasse da música. Sempre encontro com amigos músicos e sempre nos fins de semana curtimos uma boa música, isto sem falar, que sempre vou às sextas-feiras a AABB   com minha esposa para dançarmos e bater um papo com os amigos, porque ninguém é de ferro. 

CRO-RN - Sua turma está comemorando 50 anos de formados, "Jubileu de Ouro”, é um momento de alegria e saudade. Como foi a comemoração?

Marcos Paiva - Como citei anteriormente minha, a turma era pequena, somente doze alunos. Destes, já faleceram quatro. Duas colegas que moram fora de Natal estão com problemas de saúde. Comemoramos os 50 anos com uma missa na Faculdade e a aposição de uma placa comemorativa. Reunimos-nos e passamos um fim de semana num resort na Praia de Touros, e  nos encontramos na casa de alguns colegas para relembrar os tempos de estudante. Realmente foi um reencontro muito salutar para todos nós. Mantemos contatos com todos os colegas através das redes sociais e a cada dois meses almoçamos juntos. 

CRO-RN - Nossa Confraria vai completar vinte anos de existência, é muita conversa jogada fora. Como você vê o "espírito" de uma Confraria?

Marcos Paiva - Como o próprio nome diz nos reunimos para nos confraternizar. Este encontro no café da manhã das sextas feiras renova nossas energias e fortalece os nossos laços de amizade. A nossa confraria tem desempenhado o seu papel. Quando estamos juntos nos descontraímos e esquecemos os problemas diários, sem falar da alegria quando uma vez por mês jantamos com nossas esposas. O espírito da confraria está presente em todos nós.

CRO-RN - Quais são as suas admirações na Odontologia do Rio Grande do Norte?

Marcos Paiva - São tantos os nomes dos grandes mestres da Odontologia que fica difícil citar alguns e cometer injustiças, esquecendo-se de outros. Pedindo perdão aos não citados, lembro os doutores Alberto Campos, José Cavalcanti, Solon Galvão, Clemente Galvão e Giuseppe Leite.

CRO-RN - O momento político do Brasil é dramático. Há uma superpolarização. O adversário se transformou em inimigo. Como você vê esta questão?

Marcos Paiva - A situação política brasileira sempre teve momentos de polarização. Só não tivemos esses momentos no Regime Militar, porque não havia oposição ao governo. Esta polarização ao meu ver é uma coisa boa, pois mostra que nosso processo democrático está de pé. Para mim o brasileiro tem que descobrir que adversário não é inimigo e todas as posições políticas devem ser respeitadas. Mas apesar de tudo isso, o Brasil vive num regime democrático com alternância de partidos no poder, o que é muito bom.

CRO-RN - A situação da Educação do Brasil é de baixa qualidade. Nunca ganhamos um Prêmio Nobel. Entre as 200 melhores universidades do mundo o Brasil está fora. Como você analisa esta questão?

Marcos Paiva - A Educação nunca foi prioridade no Brasil. Nossas universidades, na sua maioria dá mais ênfase ao ensino, relegando a pesquisa a um segundo plano. No caso particular da Odontologia há um febre desenfreada de criar novos cursos, sem um planejamento adequado. Já somos o país com o maior número de faculdades de odontologia no mundo. As faculdades particulares na maioria não desenvolve nenhum tipo de pesquisa científica, nem procuram observar a demanda do mercado de trabalho e com isso temos muitos recém-formados fora do mercado e frustrados com a profissão. Se compararmos com outras universidades, da Europa e da América, as nossas são jovens, como sabemos somente no Século XX passamos a ter universidades. Apesar de termos muitos cursos de pós-graduação, as teses apresentadas não são, na maioria das vezes, de grande impacto científico. Na pesquisa nossa produção é relativamente baixa até porque não há um maior incentivo por parte do poder público nem da iniciativa privada. Uma prova disso é que muitos dos nossos cientistas vão desenvolver seus trabalhos em outros países. Nossas maiores universidades, USP, UFRJ e UNICAMP, são conhecidas internacionalmente, mas ainda não conseguiram se equiparar as maioresdo mundo.

(Entrevista concedida ao Dr. Givaldo Soares, cirurgião-dentista)

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