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Dr. Nelson João da Silva: um cidadão do mundo

Dr. Nelson João da Silva: um cidadão do mundo
Os CDs Givaldo, Nelson, Gláucio e Lenilson na Academia Norte-rio-grandense de Odontologia

Este pernambucano de Lagoa dos Gatos para o mundo, Nelson João da Silva, antes de trocar o Brasil por Portugal, construiu um pouco de sua brilhante história em Natal, após deixar sua cidade em 1951, onde fez de tudo antes de iniciar sua carreira na odontologia como aprendiz de protético. Nelson nasceu em Lagoa dos Gatos no dia 2 de agosto de 1931.

Chegou a Natal para trabalhar num laboratório de prótese em 1951, por intermédio do Dr. Álvaro Vieira, médico, seu conterrâneo e amigo de sua família, que naquela época trabalhava na capital potiguar. Nelson veio, viu e venceu, primeiro como protético e depois concluiu seu curso de Odontologia, em 1963, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde depois foi professor da disciplina de Prótese.

“O hobby principal de Nelson é viajar. Conheceu 48 países, e hoje, como marinheiro de longo curso, jogou sua ancora em Natal, onde goza de merecida aposentadoria ao lado de seus familiares. Ele é uma espécie de "Marco Polo" de Lagoa dos Gatos, cidade que nunca esqueceu”, diz Soares, que tem uma grande gratidão pelo amigo Nelson, que foi buscá-lo em Lagoa dos Gatos quando tinha 19 anos para vir trabalhar como aprendiz de protético no laboratório de Prótese dos irmãos Luís Carlos e João Frederico Galvão.

“É um homem generoso, que ajudou a muitos no ofício do qual ele é mestre: a Odontologia”, diz seu amigo e conterrâneo Givaldo Soares, cirurgião-dentista, 83 anos, colaborador do CRO-RN, autor dessa entrevista abaixo.

Givaldo Soares  - Nelson, fale sobre seus pais e de sua infância em Lagoa dos Gatos, Pernambuco.

Nelson - Nasci de uma família pobre. Meu pai era pedreiro, minha mãe doméstica, e fazia algumas costuras para pessoas amigas.  Meu pai fazia alguma construção, sempre que aparecia algum trabalho. Menino pobre, infância feliz.  Não muito cheia de brinquedos, muito diferente das crianças de hoje.  Jogava bola de gude, rolava pião, tomava banho nos rios, subia nas árvores para pegar frutos. Enfim, como dizia o poeta, eu era feliz e não sabia.

Givaldo- Quando você teve a primeira oportunidade de trabalho?

Nelson -Iniciei minha vida profissional em uma alfaiataria, do sr. Lourival Torres, em Lagoa dos Gatos. Vendo minha curiosidade e interesse, me convidou para aprender a arte, e ser um alfaiate.  Essa aprendizagem me deu a oportunidade de conseguir meu primeiro emprego, na Alfaiataria Conceição, em Caruaru.  Aos 13 anos, acabou a infância. Aí eu era um trabalhador. Muitas coisas aconteceram, por muitos caminhos andei, muitas dificuldades e algumas tristezas e alegrias marcaram a minha vida. 

Nelson ainda jovem em Lagoa dos Gatos.

Givaldo - Como ocorreram os seus primeiros contatos com a Prótese Dentária?

Nelson -Voltei à Lagoa dos Gatos em 1948. Encontrei um dentista prático, Agenor Vieura, mais boêmio do que dentista. E gostei também um pouco da vida boemia. Iniciei o meu trabalho viajando para Caruaru para comprar material dentário; aprendendo, manipulando gesso, as coisas mais simples que podíamos fazer, e montando dentes para as próteses dos clientes do meu amigo.

Givaldo- Quem o ajudou a chegar a Natal e onde você foi trabalhar?

Nelson - A minha vinda a Natal foi uma verdadeira aventura. Iniciei com a ajuda do Dr. Álvaro Vieira. Era Médico aqui em Natal e conhecia meu pai que trabalhava na fazenda do pai dele, então mantive um ligeiro contato com ele procurando um trabalho. Ele me disse que quando voltasse a Natal haveria a possibilidade de me arranjar qualquer coisa.  Pouco tempo depois, ele conseguiu que eu viesse para trabalhar no Laboratório Galvão, mesmo sem me conhecer. A ajuda foi muito importante! 

 Amigos do Tirol: Guaracy, Givaldo, Lenilson, Nelson e Uoston (esquerda para a direita).

Cheguei a Natal em 1951 para trabalhar no laboratório, e confesso que, inicialmente,   fiquei muito assustado com tantos equipamentos, e pensei que, para me manter como protético, seria preciso estudar bastante.  Levantei a cabeça e fui à luta. E, embora com dificuldades de um iniciante, venci.  Meu pai sempre me dizia: ‘Se você quer ser alguém, seja um batalhador, lute’.

Givaldo - Qual o momento em que você decidiu fazer seu curso de Odontologia?

Nelson - A dificuldade de ser um protético foi vencida.  Agora eu iria lutar para ir mais adiante. Achava que os meus conhecimentos de prótese poderiam me levar à Faculdade de Odontologia. As coisas foram ficando mais difíceis porque, para começar, eu não tinha feito todo o curso primário, fui até o 2º. ano. E teria de cursar o 2º e 3º para completar o primário.  Ou então teria de fazer o Curso Supletivo, que substituía o primário e o secundário.  Eu teria de fazer à noite, porque não havia curso secundário no período diurno. O que dificultava era a luta no laboratório, que era durante todo o dia.  Com muita luta fui em frente. Depois a outra dificuldade foi o secundário. Não havia curso à noite, e a matrícula só pude fazê-la numa escola de contabilidade. Três anos passaram, e eu tinha a profissão de Contador. Para me matricular para o Vestibular eu tinha de fazer as matérias do Científico: Química, Física e Biologia. Mais dificuldades, porque não tinha nenhuma base nessas matérias. Até agora, me pergunto como passei.   Segredo de Estado, Amigos. Vencida mais esta batalha tinha agora o Vestibular.  Foi muito difícil porque minha habilidade manual não bastava para substituir o conhecimento científico, queme faltava.  Mas venci, passei no Vestibular. Agora era um universitário, coisa antes impensável!

Givaldo- Além da atividade privada, você fez também uma carreira universitária.  Quem o ajudou nesse momento?

Nelson - Quem mais me incentivou foi o Prof. Rosalvo Galvão. Quando terminei o curso de Odontologia, ele me convidou para ficar na disciplina de Prótese Total, como auxiliar de Ensino. Depois fiz concurso para assistente, e fiquei como professor da Prótese.

Givaldo - Você presidiu a Associação Brasileira de Odontologia/RN, em 1977. Como avalia o papel dessa instituição, no aprimoramento técnico-científico-profissional?

Nelson - Em 1977, presidi a ABO/RN.  Acho que tive um papel importante porque eu aprendi muitas coisas com os antigos presidentes. E nos ajudavam bastante as Semanas Odontológicas que a ABO promovia todo ano. Trazíamos bons profissionais, que ministravam pequenos cursos, de muita importância para quem era iniciante na Odontologia.

Givaldo - Você teve um papel importante na reestruturação da Odontologia de Portugal, onde você foi Professor.   Como isso aconteceu?

Nelson - Em 1979, fui ao Congresso Mundial de Odontologia, em Madri, e recebi um convite do Prof. Dioraci Fonterrada para montar o Laboratório de Prótese da Escola de Medicina Dentária em Lisboa, e tomar conta da disciplina de Prótese Dentária. Voltando a Natal, recebi o convite oficial da Faculdade de Odontologia de Lisboa, e passei um período para me afastar da Faculdade de Odontologia de Natal.  Depois passei um 1º período letivo em Lisboa, em 1980, e fiquei até 1988 como professor convidado.  Retornei ao Brasil, mas continuei ministrando cursos durante o período letivo que não coincidia com o daqui. Até 1999, quando me afastei para continuar meu trabalho em minha Faculdade, em Natal.

Givaldo -  Seu hobby é viajar.  Conheceu 48 países.  O que mais lhe impressionou nessas viagens?

Nelson - Viajar sempre foi a melhor coisa de minha vida. Passei por 48 países, ilhas e principados, conheci muitas cidades importantes, e a muitas eu voltaria, outras, talvez não. 

Nelson em suas muitas viagens pelo mundo visita a Rússia e o Nepal.

 

A Índia me impressionou bastante.  É um país de muitos contrastes, com uma cultura diferente, com muitos dialetos e muitas religiões, muita religiosidade. Foi possível observar, por exemplo, que a morte é uma coisa natural, diferente do que temos aqui, onde a morte é o fim. Para eles talvez seja o começo de alguma coisa. 

Nelson na India.

Fui assistir uma cremação, à beira de um rio.  Pareceu-me tudo muito simples, o morto é despido, seus pés e a cabeça são lavados, seu corpo enrolado em um manto branco e depois colocado em uma pira para ser cremado. Perguntei ao guia porque somente lavavam os pés e a cabeça.  E ele disse: “Os pés para não levar as impurezas da terra; a cabeça para não levar os maus pensamentos”. Ao lado do corpo choravam umas mulheres que não eram da família do morto.  Elas se chamavam as carpideiras, que recebiam para chorar, e depois iam embora. Acho que aqui há muito apego às coisas materiais, muito comum em nossa religião. Aqui, tem-se muito medo da morte, não sei porquê. Talvez por querer se apegar a alguma coisa que a gente não sabe o que é. Há uma outra coisa que pude observar na Índia: o grande respeito aos animais, e a cidade do macaco, é um exemplo disso.

Givaldo - Na disciplina de Prótese, onde você exerceu o cargo de Professor, como era a convivência entre os alunos e os docentes?

Nelson - Eu entendo que um Professor é um aluno mais velho.  Que sempre busca aperfeiçoar seus conhecimentos, para melhor exercer sua profissão. Sempre respeitei os professores mais velhos, nunca tive atrito com meus alunos, e sempre dei liberdade para ficar ou não na sala de aula.  Hoje as coisas mudaram bastante...

Givaldo - A Odontologia mudou muito, principalmente os avanços tecnológicos.  Como você vê essas mudanças, e qual o conselho que daria a um jovem Dentista iniciante na profissão?

Nelson - Eu não sou contra as mudanças.  Acho que mudar faz parte da evolução.  Agora, é preciso ter os pés no chão e só fazer o que sabe. Aos novos digo: não queiram fazer o que não têm conhecimento. A Odontologia é uma profissão difícil, que cobra muito dos que a praticam.

Givaldo -Você conheceu as maiores figuras da Odontologia do Rio Grande do Norte: Clemente Galvão Neto, Solon Galvão Filho, Rosalvo Pinheiro Galvão, Alberto Moreira Campos, Odilon de Amorim Garcia, José Cavalcante de Melo e muitos outros.  Como era o seu convívio na Odontologia naquela época?

Nelson - A Odontologia nessa época era difícil porque lutávamos com a dificuldade de equipamentos e materiais.  Todos os professores me ajudaram bastante com seus conhecimentos.  Porém cada um tinha o seu modo de ser, uns com mais diplomacia e outros nem tanto. Me dava bem com todos. Vou citar, por exemplo, o Dr. Alberto Campos, que me chamava de menino rebelde da Prótese. Às vezes, eu usava essa rebeldia, não concordava com coisas que nada tinham a ver com a melhoria do ensino. Cito aqui 2 casos: o Professor deveria entrar na escola todo de branco, inclusive meias e sapatos. Eu não via melhorias no ensino. E usava minha rebeldia, chegava de sandálias, calça jeans, e com camisa vermelha.  Era a minha maneira de protestar.  Ia para minha sala, mudava de roupa, e ia atender os pacientes. Era proibido usar barba e cabelos compridos. Eu tinha vindo da pós-graduação em Bauru, com minha vasta cabeleira, e desconhecia as exigências. Na 1ª. reunião do Departamento fui informado de que não poderia trabalhar usando barba e cabelos compridos.  Na reunião, o Prof. Odilon dizia que professor tem que usar cabelo de homem.  Não achei justo, protestei, e me dirigi ao professor perguntando como era a medida do cabelo de homem, para os que tinham cabelo.  E os que não tinham, como é que ficavam?  Não recebi resposta.  O professor era totalmente careca... E recebi o convite para comparecer à sala da Direção para discutir se realmente o cabelo e a barba tinham alguma influência no ensino.  Aí tudo voltou às boas, e não seria mais proibido usar cabelos compridos e barba.

Givaldo - Você foi a Bauru, onde fez sua Pós-Graduação.  O Corpo Docente era de alto nível intelectual. Lembra-se de algumas figuras da época?Nelson - A escola de Bauru não parecia ser no Brasil. O Corpo Docente formado por Professores com Mestrado e Doutorado, bem equipada. O difícil era voltar para a minha Faculdade onde faltavam muitas coisas, e se, por acaso, nós tivéssemos um trabalho de pesquisa, o Reitor dizia que podia fazer a pesquisa, mas a Universidade não dava dinheiro.  Pesquisa sem dinheiro. O que fazer?  Em Bauru convivi com vários professores de muita cultura e saber. Poderia citar Waldir Janson, José Mondeli e Tadachi Tamaki e muitos outros.

Givaldo- Nelson, Agenor Vieira (em memória) foi o nosso grande Mestre. Ensinou a você, a mim e a José Braulino Júnior.  Como você lembra essa grande figura de nossa querida Lagoa dos Gatos?

Nelson – Agenor foi nosso grande mestre.  O pouco que sabia nos ensinou.  Um grande coração, mais boêmio que Dentista, querido das mulheres e dono das noites de Lagoa dos Gatos. 

Givaldo - Você esteve em março na Academia Norte-rio-grandense de Odontologia para receber o título de Sócio Honorário.  Como recebeu este reconhecimento da Casa da Memória?

Nelson com as filhas na homenagem que recebeu na Academia Norte-rio-grandense de Odontologia, em março, onde recebeu o título de Acadêmico Honorário.

Nelson -Recebi o título de sócio honorário com muita alegria, não sei se merecido ou não.  Acho até que foi por muita amizade da sua Presidente, Dra. Moema e de seus companheiros de Diretoria. Eu havia sido indicado várias vezes para Acadêmico, e sempre fui preterido.  Havia incompatibilidades com Diretores da Academia. Antes, houve um cochilo numa reunião e fui indicado.  Recebi o convite através do Dr. ODILON GARCIA, e fiquei muito surpreso porque já várias vezes tinha sido indicado sem ser aceito. Estava de férias em Natal, vindo de Lisboa, e respondi ao Professor que, apesar da minha surpresa, iria pensar no caso, após regressar a Lisboa, daria uma resposta. Quando cheguei em Lisboa já havia uma carta do Dr. Max de Azevedo informando que eu teria de sentar na Cadeira com a Dra. IGNEZ LEMOS SANTOS, e que eu tinha que remeter uma soma indicada e alguns documentos.  Respondi que talvez o seu marido, Dr. Silva Santos não iria gostar. Como estava em Lisboa, sem saber quando voltaria para o Brasil, não respondi.  E fiquei novamente como um rebelde. Alguns colegas até insinuaram que eu não compareceria para receber o título, mas respondi com minha presença para demonstrar que não guardo mágoa de ninguém. Acho que as coisas acontecem quando têm de acontecer, e me sinto muito feliz pelo convite. Quero agradecer ao Dr. Givaldo, colega e companheiro de luta e das quartas nobres, e ao Dr. Marcos Guerra, que me ajudou a organizar estas linhas.

Dr. Nelson na granja com os amigos Givaldo e Valdir conversando sobre o livro de Lagoa dos Gatos. 

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